domingo, 15 de setembro de 2013

Internet levará à distopia ou a uma cultura mais forte, diz fundador do WikiLeaks

PROPOSTA MELHOR EXPLICADA( CALMA , FAÇO MAIS TARDE)

ANTES DE TUDO VAMOS SABER O QUE É DISTOPIA

http://literaturaeeu.blogspot.com.br/2013/01/genero-literario-distopia.html

fONTE, FOLHA DE SP



NELSON DE SÁ
DE SÃO PAULO

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Entre a prisão domiciliar e o asilo na embaixada do Equador, Julian Assange, 42, está confinado há dois anos e nove meses no Reino Unido.
Mas o fundador e editor-chefe do WikiLeaks (site conhecido por publicar documentos sigilosos) não se lamenta, em entrevista por telefone à Folha. Lista o que tem de importante para fazer, como editar novo vazamento e manter o apoio a Edward Snowden, ex-analista da CIA que revelou a espionagem em curso do governo dos EUA.
Participa nesta quarta, por vídeo, de um debate sobre vigilância digital no Centro Cultural São Paulo. Deve falar de Além de Snowden, dele próprio e dos colegas Glenn Greenwald e Laura Poitras, acrescenta um nome à lista dos exilados da "distopia": Sarah Harrison, jornalista do WikiLeaks que não pode mais voltar ao Reino Unido.
Ele critica Dilma Rousseff por negar o asilo que o WikiLeaks pediu para Snowden. "Sob Lula, o Ministério das Relações Exteriores era bastante independente. Não ter [concedido asilo] sugere que a posição da presidente é fraca." A seguir, leia alguns trechos da entrevista.
Leon Neal - 6.dez.12/AFP
Assange na embaixada do Equador em Londres
Assange na embaixada do Equador em Londres
*
Folha - O livro soa premonitório quando foca o acesso do governo dos EUA às comunicações latino-americanas, através de fibra ótica. Snowden, depois, comprovou o acesso no Brasil.
Julian Assange - Estudo a Agência Nacional de Segurança [dos EUA] há 20 anos. A imagem foi composta de vazamentos, telegramas, inquéritos do Congresso, testemunhos de ex-funcionários. Uma imagem complexa, que precisava ler milhares de coisas. O importante das revelações de Snowden é que alguns documentos tornaram isso claro para as pessoas.
Quando começou sua relação com Snowden? Foi através de Laura Poitras? Ou antes?
Não podemos falar desses contatos, por razões legais. Mas é interessante falar por que não podemos falar. É porque os EUA se engajaram na expansão de seu regime legal para outros países. Estão envolvidos em 67 territórios diferentes, alegando crimes.
Quando é que um governo controla outro país? Quando ele controla o uso da força de coerção. No caso do WikiLeaks, o governo aplica a Lei de Espionagem de 1917 contra jornalistas fora dos EUA.
Chelsea Manning, militar americana acusada de vazar dados sigilosos para o WikiLeaks, acaba de ser absolvida de "ajudar o inimigo", um veredito que o sr. saudou como "vitória tática". Isso também tira parte da ameaça que estava sobre o WikiLeaks?
É uma situação muito séria. Manning foi condenada por cinco acusações de espionagem. A única alegação é de que passou informação para uma organização de mídia, mas mesmo assim foi condenada por espionagem. O governo Obama processou mais casos envolvendo "whistle-blowers" [vazadores] do que todos os anteriores juntos, voltando até o século 19.
Qual é a situação, agora?
A maior investigação jamais feita de um publisher, o WikiLeaks, prossegue nos EUA. Recebi asilo do Equador. Snowden recebeu asilo, com nossa assistência, na Rússia. Laura Poitras, a documentarista de Nova York associada com Snowden e conosco, está em autoexílio na Alemanha. Greenwald, do "Guardian", está em auto-exílio no Brasil e não pode ir com segurança para os EUA.
E uma de nossas jornalistas, Sarah Harrison, que viajou com Snowden a Moscou e auxiliou o processo formal de asilo, agora está em auto-exílio, porque nossos advogados instruíram que seria perigoso voltar ao Reino Unido. É resultado da detenção de David Miranda [namorado brasileiro de Greenwald].
O Ocidente anglo-saxão está em colapso no que concerne ao Estado de Direito. Os institutos do asilo e do exílio estão se tornando importantes novamente. Seria importante ver o Brasil apoiá-los.
Mas o Brasil recusou o pedido de asilo de Snowden.
É muito decepcionante. Mostra a realidade das relações Brasil-EUA, infelizmente. Se você ler os telegramas diplomáticos do WikiLeaks sobre o Brasil, verá que sob Lula o Ministério das Relações Exteriores era bastante independente. É um sinal preocupante sobre a independência brasileira. O Brasil, no que concerne a América Latina, é forte o bastante para fazê-lo [conceder o asilo]. Que não tenha feito sugere que a posição da presidente Dilma é fraca, e ela deveria adotar ações para demonstrar essa força.
Greenwald afirma que o Brasil é o maior alvo dos EUA.
A estatística de um dos programas da NSA mostra que os EUA interceptam mais sobre o Brasil do que sobre qualquer outro país latino-americano, pelo tamanho econômico, número de empresas americanas, contratos de equipamento, petróleo.
Que conselho o sr. daria à presidente Dilma e à Petrobras? Adotarem criptografia, como escreve em "Cypherpunks"?
Sim, eles precisam abraçar criptografia. O problema de comprar equipamento de criptografia para a Petrobras ou a presidente é: você pode confiar no fornecedor? Os EUA são especializados em se infiltrar no chip dos equipamentos criptográficos. O que o país precisa é conseguir o talento brasileiro para suas próprias agências de criptografia, para que desenvolvam tecnologia que seja confiável.
Reprodução
Assange livre', pede grafite no Largo da Batata, em SP
'Assange livre', pede grafite no Largo da Batata, em SP
Greenwald ouviu o mesmo questionamento que o sr., de que não seria jornalista.
Nós previmos isso, assim que saiu a primeira publicação de Glenn, "em 12 horas, espere os ataques, eles vão tentar de tudo". E foi o que fizeram, vasculhando sua personalidade, negócios passados. Os ataques são previsíveis e enfadonhos. Mais revoltante é ver jornalistas americanos tomando parte.
O sr. está em reclusão há quase três anos. Vê alguma brecha nos governos britânico e sueco para que isso termine?
A minha prioridade é que o governo dos EUA abriu investigação contra o WikiLeaks. Na semana passada, entramos com ações na Alemanha e na Suíça. Lenta, mas seguramente, nós estamos saindo da defesa para o ataque.
Como é o seu cotidiano na embaixada? Pode tomar sol? Enfrentou depressão?
Eu refleti sobre essa situação algumas vezes. Mas nós temos publicações históricas chegando, temos uma dezena de processos judiciais, temos nossas responsabilidades em relação a Snowden e protegendo nossas outras pessoas. Isso tudo é tão engajador que, felizmente, não há muito tempo para pensar na minha própria situação.
Tem um filme entrando em cartaz, "O Quinto Poder". Como é a sensação de estar encarcerado e se tornar personagem de Hollywood?
Houve um anterior, "Australia: Underground", um bom filme. Também uma peça sobre Manning, grande peça, do País de Gales. Mas os documentários e filmes hollywoodianos têm um viés. Nesse filme a que você se referiu os atores nos apoiam, mas o roteiro, infelizmente, não.
Tem também o documentário de Poitras [para 2013].
O documentário de Laura será importante, sobre o que está acontecendo com o Ocidente à deriva para um estado de vigilância transnacional. Um dos aspectos é que a NSA e outras não são agências sombrias controlando tudo. É uma distopia pós-moderna em formação onde o sigilo é tão compartimentado e o sistema é tão bizantino que indivíduo nenhum entende. Você tem grandes organizações ao lado de milhares de contratadas. E elas formam um atoleiro, capaz de expandir influência. É difícil achar analogia precisa. É menos xadrez e mais horda mongol.
Seu livro cita uma trajetória alternativa mais positiva.
Há uma tendência importante na direção contrária. O que estamos vendo, com o fracasso da intenção de erguer um ataque à Síria, com as revelações, é o desenvolvimento de um novo corpo político internacional, de um novo consenso, de um novo "demos" [povo como unidade política].
Se a internet, por um lado, ampliou imensamente o poder dos Estados Unidos como Estado, por outro também produziu uma nova sociedade. É um tempo muito interessante, porque ou vamos derivar para essa distopia ou para esta nova cultura internacional fortalecida, que vai fornecer uma força prática e política de equilíbrio.
CYPHERPUNKS - LIBERDADE E O FUTURO DA INTERNET
AUTOR Julian Assange (com Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann)
TRADUÇÃO Cristina Yamagami
EDITORA Boitempo
QUANTO R$ 29 (168 págs.)
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Na ONU, Dilma diz que espionagem viola direitos humanos

 JOANA CUNHA
DE NOVA YORK
GABRIELA MANZINI
ENVIADA ESPECIAL A NOVA YORK
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Em tom rígido, a presidente Dilma Rousseff levou nesta terça-feira à 68ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, as críticas do país ao governo americano, acusado de espionar inclusive as comunicações pessoais da presidente brasileira.
Na plenária, Dilma qualificou o programa de inteligência dos EUA de "uma grave violação dos direitos humanos e das liberdades civis; de invasão e captura de informações sigilosas relativas a atividades empresariais e, sobretudo, de desrespeito à soberania nacional".
Dilma afirmou que as denúncias causaram "indignação e repúdio" e que foram "ainda mais graves" no Brasil, "pois aparecemos como alvo dessa intrusão". Disse ainda que "governos e sociedades amigos, que buscam consolidar uma parceria efetivamente estratégica, como é o nosso caso, não podem permitir que ações ilegais, recorrentes, tenham curso como se fossem normais".
"Elas são inadmissíveis", completou.
Conforme a brasileira, o Brasil "fez saber ao governo norte-americano nosso protesto, exigindo explicações, desculpas e garantias de que tais procedimentos não se repetirão".
Há uma semana, a presidente cancelou a visita de Estado que faria ao colega Barack Obama em outubro que vem, em Washington, por "falta de apuração" sobre as denúncias de que a inteligência americana espionou as comunicações pessoais da brasileira, além da Petrobras.
Para ela, "imiscuir-se dessa forma na vida de outros países fere o direito internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre elas, sobretudo, entre nações amigas".
Dilma também foi extraordinariamente dura ao rebater frontalmente o argumento americano de que a espionagem visa combater o terrorismo e, portanto, proteger cidadãos não só dos EUA como de todo o mundo.
Para Dilma, o argumento "não se sustenta". "Jamais pode uma soberania firmar-se em detrimento de outra. Jamais pode o direito à segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos humanos fundamentais dos cidadãos de outro país."
"O Brasil, senhor presidente [da Assembleia Geral], sabe proteger-se. Repudia, combate e não dá abrigo a grupos terroristas", disse.
O Brasil faz o discurso de abertura da reunião anual desde que o embaixador Oswaldo Aranha iniciou a tradição, em 1947.


A revolução das encalhadas

FONTE, FOLHA DE SP

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MARCELO NINIO
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RESUMO Beneficiada por 30 anos de abertura econômica, geração de chinesas nascidas na década de 1980 se depara com pressão social contrária à profissionalização e ao adiamento do casamento. Família, governo e mídia colam às solteiras o rótulo de "mulheres sobra", que voluntariamente parte delas começa a contrariar.
*
Desde que rompeu um namoro de cinco anos, há poucos meses, a designer gráfica Bai Yu pensa duas vezes antes de visitar os pais.
A distância é uma boa desculpa, já que ela vive em Pequim e a viagem à Mongólia Interior, sua província de origem, é longa e cansativa. Mas o principal motivo que a mantém longe de casa é a pressão familiar. Se não mudar logo de estado civil, alertam os pais, ela corre o risco de perder o "prazo de validade".
Solteira aos 31 anos, pelas normas sociais chinesas Bai já passou faz tempo da idade de casar. O maior pesadelo foi na última Festa da Primavera, como é conhecido o Ano Novo chinês, quando a família se reuniu para a data mais importante do calendário chinês.
"Tem sempre aquela tia perguntando por que ainda não casei e outra com uma lista de candidatos que quer me apresentar", diz Bai.
Mas, para ela, o pior é carregar a marca desonrosa da encalhada, um fardo pesado num país em que igualdade entre os gêneros não acompanhou a vertiginosa transformação dos últimos 30 anos de abertura econômica.
O peso começa na semântica. Em mandarim, a junção de dois caracteres condensa o insulto de que são alvo as solteiras chinesas a partir dos 27 anos: "sheng nu" ("mulheres sobra", numa tradução ao pé da letra).
"O estigma do 'sheng nu' é o retrato perfeito do confronto épico que está sendo travado na sociedade chinesa entre o velho e o novo", diz Joy Chen, autora do best-seller "Não Case Antes dos 30" --como indica o título, uma incitação à rebeldia contra a rotulação.
Por milênios, explica Chen, o único papel da mulher na China era ser mulher e mãe. "Essas jovens têm o peso de 5.000 anos sobre os ombros. Acontece que as chinesas são cada vez mais instruídas e bem informadas e estão rejeitando o papel tradicional".
É o caso de Bai Yu, uma típica filha dos anos 1980. Ela faz parte da primeira geração nascida na esteira da abertura promovida a partir de 1978, mas ainda com um pé nos anos de isolamento e radicalismo da era maoísta.
"Odeio o termo 'sheng nu' e não me vejo como uma encalhada", diz Bai, vestida num elegante conjunto de seda azul turquesa. "Os mais velhos não entendem isso, mas estar solteira também pode uma escolha."
Além do preconceito e da pressão imposta pelos pais, a rebeldia de jovens como Bai enfrenta inimigos poderosos no aparato da autocracia chinesa.
Há alguns anos, a Federação de Mulheres da China, órgão estatal, oficializou o estigma da encalhada em artigos publicados em sua página na internet.
Os títulos beiravam a demonização das solteiras: "Oito formas simples de escapar da armadilhas da solteirona" ou "As solteironas merecem nossa simpatia?" (a resposta era não).
Para escapar do rótulo de encalhada e evitar o risco de virar uma sobra na prateleira do mercado de relacionamentos, o site da federação estabeleceu o limite de 27 anos como a linha vermelha das solteiras. Como a idade legal mínima na China para o casamento de mulheres é de 20 anos, isso deixa uma janela estreita para as jovens chinesas.
FEMINISTAS
A fato de ser da competência de uma agência estatal representar os interesses da mulher é sintomático da ausência de movimentos femininos sérios no país. A opinião é de Wu Qing, 75, incansável ativista de direitos humanos e uma das pioneiras (e solitárias) feministas da China.
Professora aposentada de inglês, Wu foi deputada do Congresso do Povo pelo distrito de Haidian, em Pequim, por 27 anos -até ser proibida de se candidatar ao posto, em 2011. Ela não esconde sua irritação toda vez que ouve o termo "sheng nu".
"É uma enorme discriminação contra a mulher. Por que não usam o mesmo termo para os homens? As pessoas não são sobras. Cada um deveria decidir se e quando quer casar", opina Wu.
Uma das fundadoras, em 1987, do grupo de estudos femininos da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, onde lecionava, ela diz que não é possível separar os direitos das mulheres da restrições às liberdades políticas no país. "Nenhum direito é dado de bandeja. Se querem igualdade, as mulheres têm que lutar por ela", esbraveja a ativista.
As reformas econômicas deram novas chances de ascensão às mulheres chinesas. Segundo um ranking da revista "Hurun", especializada no mundo dos endinheirados, sete das dez empreendedoras mais ricas do mundo são chinesas.
Mas Wu afirma que essas histórias de sucesso se desenrolaram apesar do sistema vigente, e não graças a ele. Homens ganham mais do que mulheres com a mesma qualificação e têm mais chances de serem promovidos. Isso sem falar na hegemonia masculina que prevalece na política.
"Entre os sete membros do Comitê Permanente do Partido Comunista, não há nenhuma mulher. E entre os 25 do Comitê Central só há duas mulheres. Quem vai defender os interesses femininos?", indaga a ex-deputada Wu.
COCHICHO
A pressão social sofrida pelas mulheres solteiras na China vai muito além do discurso oficial e do cochicho dos vizinhos, tendo reflexos na cultura popular.
A televisão chinesa exibe 22 programas de namoro, que atraem enorme audiência e geram inflamados debates. Um dos mais populares deixa claro já no nome que não há tempo a perder: "Se você não é sério, não me amole".
"Esses programas alimentam o estigma da solteira como perdedora e a pressão para que a mulher considere o casamento a única coisa que importa", reclama a jornalista Yuan Yaowen, 30. "E as candidatas são geralmente meninas entre 22 e 25 anos, que nem deveriam estar pensando em casar."
O choque entre tradicional e moderno cria um código de conduta que confunde e incomoda as mulheres da geração 80.
"Por um lado, a sociedade é ultracompetitiva e nos incentiva a valorizar a formação profissional para conseguir um emprego", diz Yuan, que está há mais de dois anos sem namorado. "Por outro, espera-se que larguemos tudo no começo de nossas carreiras para sermos mulheres e mães."
Os números comprovam: a importância do casamento manteve-se imune ao ataque às instituições burguesas promovido pelos comunistas, desde que tomaram o poder em 1949, e à modernização das últimas três décadas.
Segundo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, 77,4% das mulheres chinesas entre 25 e 29 anos já são casadas. Para efeito de comparação, no Brasil, o índice de casadas para o mesmo grupo é de 32,7%; na França é de 27,3% -ainda que haja casos mais extremos que o chinês: na Índia, só 5,9% das meninas dessa faixa etária são solteiras.
A ansiedade dos pais para que as filhas se casem antes dos 30 é explicada pela preocupação com a imagem mas também pela manifesta preferência dos homens chineses em mulheres na casa dos 20 para o matrimônio.
Para desencalhar as filhas, todo esforço é válido --inclusive a embaraçosa exposição pública. No parque de Zhongshan, bem ao lado da Cidade Proibida, marco histórico de Pequim, centenas de pais se reúnem todo domingo, num verdadeiro mercadão de solteiros.
Mais uma vez, o abismo geracional é gritante. Enquanto os jovens buscam novas amizades e ensaiam flertes em plataformas virtuais, como microblogs e o programa de mensagens por celular WeChat (uma febre na China), os pais preferem se jogar no corpo a corpo.
Os casais se posicionam ao longo de uma das alamedas arborizadas do parque. Com pequenos cartazes escritos à mão, promovem os atributos dos filhas e informam os requisitos que esperam encontrar no genro de seus sonhos.
Cada um faz o que pode. Algumas mães andam pelo parque com o cartaz em punho, lembrando os compradores de ouro do centro de São Paulo. Outras chegam a pendurar no pescoço uma foto da filha ou do filho --há raros casos de rapazes anunciados, mas os solteiros não são rotulados como "encalhados". A maioria está lá sem o conhecimento dos filhos.
"Tian Xiaogi, nascida em 1986. Pós-graduada em ciência da alimentação na Nova Zelândia, 1,69 m de altura. Procura: rapaz entre 27 e 35 anos, pelo menos 1,70 m de altura, emprego estável, apartamento próprio."
Diante do cartaz, um pai com ar tímido espera possíveis interessados. O casal se dividiu. Enquanto ele marcava o ponto, a mulher caminhava pela alameda de anúncios, analisando currículos e trocando fotos com outros pais.
"Minha filha queria ficar na Austrália para fazer um doutorado, mas nós dissemos que era hora de ela voltar", conta Tian Li. "Ela está com 27 anos, é uma idade crítica. Depois dos 30 é muito difícil achar um marido."
O fator econômico também pesa. Pelas convenções chinesas, um homem precisa ter um imóvel para casar --como bem destacava o cartaz dos Tian. Segundo uma pesquisa da consultoria chinesa Horizon, 3/4 das mulheres consideram a posse da casa própria uma prioridade no candidato a marido.
O foco na riqueza a qualquer custo é uma marca dos anos de modernização na China que revolta a feminista Wu Qing. "A mídia oficial não para de promover a riqueza e o poder como metas", critica Wu. O casamento, por extensão, acaba se tornando um meio para alcançá-las.
Sabendo disso, muitos homens começam a financiar o apartamento para sua vida de casado bem antes de encontrar a noiva. O fenômeno é tão comum que impactou o mercado imobiliário.
Segundo um estudo elaborado por três economistas, entre eles Yin Liu, da conceituada universidade Tsinghua, em Pequim, a competição por noivas ajuda a explicar a disparada dos preços no mercado imobiliário chinês.
O resultado é que os preços dos imóveis são mais altos nas cidades onde a população masculina supera em muito a porção feminina. A corrida é tão acirrada que gerou um termo depreciativo para a oferta de homens que não podem começar a vida conjugal com a casa própria: "casamentos nus".
DEMOGRAFIA
A julgar pelos números da demografia chinesa, não deveria ser problema para as mulheres achar um noivo. Na faixa entre 20 e 30 anos, há 20 milhões de homens a mais que mulheres, resultado da prática de abortos seletivos condicionada pela preferência de muitos pais por meninos. Em 2012, nasceram 118 meninos para cada 100 meninas.
Significa que o estigma das encalhadas é apenas um componente de um problema maior. Uma verdadeira crise de solteiros, conforme indicou num estudo recente um dos maiores sites de notícias da China, o Sohu.com.
Intitulado "Mulheres e Homens em Perigo", o estudo gerou acaloradas discussões no popular microblog Weibo, a versão chinesa do Twitter. Apesar das divergências, quase todos os usuários culparam a política de filho único pela distorção.
"A política de filho único está em vigor há 30 anos. Muitos moradores das áreas rurais optaram por abortos quando conceberam meninas. Agora seus filhos não conseguem achar esposas. Isso é o que dá quando se matam bebês!", disparou a internauta identificada como Jingxuan 57203.
O desequilíbrio tende a aumentar. De acordo com algumas projeções, em 2020 haverá 30 milhões de chineses a mais que chinesas. Para um governo obcecado com o mantra da "sociedade harmoniosa", é um problema e tanto.
ANTES SÓ
"Acho que a campanha estatal contra os solteiros se dá em grande parte pela preocupação em evitar a instabilidade social", especula Wang Jin, 30, que trabalha numa firma de importação de vinhos. Assim como outras solteiras de sua idade, ela reconhece que é exigente e prefere ficar só que mal acompanhada. "Os homens chineses são imaturos. Acham que vão casar para ter alguém para servi-los", reclama. "Melhor esperar."
O nível de instrução crescente das novas gerações de mulheres chinesas provocou um obstáculo adicional. Além de tornar as mulheres mais independentes e exigentes, a maior qualificação reduziu suas chances no mercado dos casamentos, devido à convenção chinesa de que homens devem ganhar mais que as mulheres.
"Os homens chineses ficam intimidados com mulheres com poder econômico", diz Wei Wang, 25, que acaba de voltar à China depois de cinco anos na Austrália. Se dependesse dela, Wei teria ficado em Brisbane, onde se formou em finanças e marketing.
Só voltou por insistência dos pais. Mas não tem nenhuma intenção de ceder à pressão para que se case antes dos 30. "Metade das minhas colegas de escola estão casadas e já tem filho", conta Wei. Em muitos casos, a pressa em casar acelera a frustração. "Muitas já estão falando em divórcio. Não quero cometer o mesmo erro."
No parque Zhongshan, alguns pais admitem, com indisfarçada tristeza, que o investimento que fizeram na educação das filhas pode ser um tiro pela culatra.
"Estou pensando em tirar do anúncio que minha filha tem pós-graduação em psicologia", diz Aiu Aiguo, diante do cartaz que anuncia o currículo. "Uma moça qualificada demais assusta os homens".
Além da pós-graduação, o cartaz exibido por Aiu informa que sua filha mede 1,70 m e nasceu em 1988, o que ainda a mantém dois anos distante de se enquadrar no estigma de encalhada. Para ele, porém, aos 25 ela já está "velha".
"Tenho medo dos efeitos físicos e psicológicos que ela sofrerá, caso demore a se casar", afirma o pai, sentado numa cadeira dobrável ao pé de uma árvore. "Se continuar solteira, sua personalidade vai se estragar", teme Aiu.
PAQUERA
Para Joy Chen, a autora de "Não Case Antes dos 30", um dos problemas é a falta de uma "cultura da paquera" na China. "Muitas solteiras não têm exposição a homens em suas vidas. Elas vão para o trabalho e ficam o tempo todo com as amigas. Muitas das solteiras com quem conversei disseram que mal conhecem homens", diz Chen.
As moças ouvidas pela Folha concordam. A grande chance de encontrar um namorado espontaneamente é durante os estudos universitários. Depois de formadas, as oportunidades mínguam. Os homens são tímidos, e a maioria das mulheres, mesmo as de mentalidade mais aberta, não acha respeitável tomar a iniciativa.
"O choque entre tradicional e moderno não ocorre só entre gerações mas também dentro de nós", reconhece a esbelta professora de ioga de 29 anos que pede para ser chamada de Alice.
Os encontros geralmente se dão por meio de indicação de amigos ou parentes. A ação familiar é determinante. "Tenho encontro marcado com um rapaz indicado pelos meus pais. Insistiram tanto que decidi dar uma chance, para pararem de me ligar", conta ela.
Outra opção popular são os sites de casamento. O mais popular deles, Jiayuan.com (belo destino, em mandarim), tem 93 milhões de usuários registrados e escritórios em várias cidades da China. Sua fundadora, Gong Haiyan, decidiu criar seu próprio serviço on-line de relacionamentos após fracassar na busca por um marido na internet.
Passados dez anos, sua empresa é a maior casamenteira on-line da China e está cotada na Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York. Porém o que mais enche de orgulho a fundadora Gong foi ter achado o marido dos sonhos pelo site.
Segundo Li Zhongxiao, vice-presidente de relações públicas do Jiayuan.com, todo dia entre 6.000 e 7.000 usuários mudam seu status de "solteiro(a)" para "apaixonado(a)" ou "encontrei o que procurava".
"Mulheres modernas têm educação superior, são independentes economicamente e na mentalidade, por isso suas preferências são muito diferentes do que no passado", diz Li. Ele afirma que os três principais requisitos das usuárias em relação ao namorado que procuram são "carreira bem-sucedida, maturidade e valores comuns".
O sonho, porém, é minimizado por um número crescente de mulheres -aquelas que se negam a aceitar o estigma de encalhadas.
No ano passado, essa geração de mulheres independentes ganhou um aliado com a produção de uma série de TV que redefiniu o rótulo tão incômodo.
A virada de mesa foi possível com um truque linguístico. "Sheng" -o termo que, no começo deste texto, foi definido como "sobra"- também pode significar "vitoriosa", uma vez que, em mandarim, palavras homófonas ganham sentido diferente segundo o ideograma escolhido na escrita.
O seriado "O Preço de uma Mulher Vitoriosa" conta a saga de uma mulher solteira que constrói uma carreira de sucesso apesar dos tropeços na vida amorosa. Para muitas solteiras, a ficção imita a vida.
"Como é que vou me sentir perdedora se faço o que quero e tenho o poder de decidir quando e com quem casar?", questiona a jornalista Yuan Yaowen. "Quero mais é aproveitar a vida de solteira enquanto posso."
MARCELO NINIO, 47, é correspondente da Folha em Pequim.

Miguel Srougi - Médicos brasileiros: sofrimento interminável

FONTE. FOLHA DE SP.

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A medicina oferece a seus profissionais um privilégio sem paralelo: aliviar o sofrimento e resgatar seres para a vida. Infelizmente, esses momentos não se perenizam, ora por atitudes indevidas dos próprios médicos, ora por omissão de governantes inescrupulosos.
Isso é o que acontece neste momento da nação. Feridos na sua autoestima, os médicos posicionaram-se incorretamente contra a vinda de profissionais estrangeiros, na contramão de um movimento planetário. Em todos os países, faltam médicos, sobretudo para atuar em saúde básica. Calcula-se que, nos EUA, exista um deficit de 15.230 médicos; na região de Yorkshire, na Inglaterra, os serviços de emergência não contam com médicos à noite. Foi preciso recorrer ao Exército.
Pecaram também os médicos, postando-se contra a participação de enfermeiras, psicólogos ou fisioterapeutas na assistência direta a pacientes. Posição lógica quando se lida com doenças mais complexas, mas irracional em saúde básica. Ademais, seriam criadas oportunidades de trabalho para os brasileiros.
Ao contrário dos médicos, que assumiram posições inconsistentes por ingenuidade ou romantismo, presenciamos uma reação disparatada dos nossos governantes aos clamores das ruas. Para dissimular a indecência na saúde, propuseram um conjunto de medidas falaciosas; a principal delas, importar médicos cubanos para atender nos grotões. Ideia com grande apelo aos mais distraídos, mas de difícil implantação por afrontar as leis, a soberania e os valores brasileiros.
Determinadas a contornar as resistências, nossas autoridades adotaram um estratagema perverso. Desencadearam uma campanha de demonização dos médicos brasileiros.
Gesto perigoso, por incitar o confronto entre cidadãos brasileiros num país que é desigual porque tem governantes incompetentes ou desonestos. Gesto injusto, porque insulta uma legião de médicos brasileiros que têm dedicado suas vidas aos mais pobres. Médicos que têm, em média, três empregos e que ganham um salário inicial de R$ 1.200, como ocorre em Goiás. Vinculados a uma profissão na qual 48% dos seus membros trabalham, semanalmente, de 20 a 50 horas a mais do que a população comum.
Médicos que também são vítimas da inépcia dos nossos governantes. Que, por descumprirem suas obrigações, arruinaram e produziram, nos últimos cinco anos, o fechamento de 286 hospitais ligados ao SUS. Pior ainda, governo cujo Ministério da Saúde deixou de utilizar, por inoperância, R$ 9 bilhões dos recursos a ele destinados em 2012. Valor com o qual teriam sido construídas e equipadas cerca de 18 mil unidades básicas de saúde, garantindo uma assistência qualificada a milhões de desvalidos e reduzindo o número de corpos que despencam nas filas intermináveis dos hospitais públicos.
Diante do caos, seria ainda possível corrigir a tragédia que nos assola? Acho que sim, até atrevo-me a fazer algumas sugestões. 1) Alocar, de forma sincera, recursos substanciais na área da saúde. 2) Entregar a direção do Ministério da Saúde e do SUS a gestores competentes e sinceros, e não a políticos oportunistas. 3) Entregar a gestão dos hospitais públicos a organizações sociais sem fins lucrativos. 4) Aperfeiçoar e aumentar a abrangência das equipes de Saúde da Família. 5) Atualizar coerentemente as tabelas de ressarcimento do SUS. 6) Criar um plano de cargos e salários condignos para os médicos atuarem em saúde básica, associado a oportunidades de trabalho e estudo para suas famílias. 6) Legalizar e contratar equipes multiprofissionais para prestarem atendimento em saúde básica, auxiliando ou substituindo os médicos aonde eles inexistem. 8) Alijar os corruptos que se locupletam na saúde. 9) Promover um aumento imediato de 20% a 30% de vagas nas escolas médicas, com financiamento governamental. 10) Inserir os médicos brasileiros nesse processo de reconstrução da saúde nacional.
Os cidadãos desassistidos serão melhor amparados, o governo cumprirá com mais dignidade o seu papel social e os médicos terão amenizados seus momentos de sofrimento interminável.
MIGUEL SROUGI, 66, pós-graduado em urologia pela Universidade Harvard, é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do conselho do Instituto Criança é Vida

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Café Filosófico: Ética em tempo de mudança - Renato Janine

http://www.youtube.com/watch?v=K9vtSxcmYDM

Escreva um artigo de opinião sobre as manifestações de junho de 2013

COMO FAZER UM ARTIGO DE OPINIÃO

CONSULTE O EXCELENTE MANOEL NEVES


Comecem a estudar o artigo de opinião aqui


http://manoelneves.com/2009/05/25/artigo-de-opiniao-ufmg-2009/#.UiULf5JQFpY


http://manoelneves.com/2011/11/12/revisando-os-generos-argumentativos/#.UiUKwJJQFpY


No mundo da internet, há dois fenômenos interessantes. Temos o crowdfunding, plataforma pela qual, internautas podem doar pequenos valores em dinheiro que, somados, patrocinam a produção de obras artísticas de músicos, cineastas, desenhistas e criadores de diferentes áreas. O segundo fenômeno é o do ciberativismos, pelo qual diferentes grupos sociais e políticos debatem e expressam suas opiniões a respeito de demandas da nossa atualidade na internet, principalmente, em mídias sociais como o Twitter.

A partir do  início de junho de 2013, testemunhamos no Brasil, intensas manifestações nas principais capitais e regiões metropolitanas do país para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, trem e metrô; acrescentando reclamações contra o aumento dos alimentos, dos alugueis, e do empobrecimento da qualidade dos serviços públicos no Brasil (saúde, educação, moradia e respeito aos direitos civis).
Sem lideranças unânimes, sem predomínio de grandes partidos políticos, as manifestações surgiram como uma forte onda social nas principais praças e ruas, reunindo milhares de pessoas que compartilhavam uma forte pergunta já presente no consciente coletivo há tempo:
“Como um país que financia 20 bilhões de reais para construção de estádios para a Copa 2014 não pode financiar e investir a nossa verba para construção de escolas de alto nível, hospitais de excelência e segurança pública ?”
Nos últimos anos, esse consciente coletivo questionador já estava presente nas mídias sociais através do ciberativismo de diferentes pessoas e grupos que questionavam: “Se o país está ruim agora, imagine na Copa!”. Porém, pessoas de diferentes classes sociais, que há mais de trinta anos criticavam os buracos de nossas estradas, os médicos e professores sem salários, as crianças sem estudo e o baixo respeito que temos recebido de nossos representantes no Congresso Nacional, decidiram vomitar de uma só vez numa mesma onda todos os sofrimentos, reclamações e dificuldades sociais que nos castigam. Socialmente, as mídias sociais desceram para o asfalto, assim como uma postagem, cada um grita o que pensa e dá a sua livre contribuição (como num crowdfunding) para construirmos uma obra maior, uma nação.
Nos tempos do Impeachment do Collor (1992), nós, estudantes “caras-pintadas“, tiramos um presidente através de manifestações pacíficas. Nas atuais manifestações populares, além de expressões pacíficas de estudantes e trabalhadores, está havendo forte ocorrência de violência e saques no decorrer das passeatas, atos causados por subgrupos não identificados como estudantes ou cidadãos comuns, mas como vândalos, bandidos, extremistas políticos e integrantes de “tribos” radicais racistas e xenófobas. Neste paradigma, podemos considerar que, entre 1992 e 2013, a composição da sociedade brasileira mudou. Em 1992, éramos formados por grupos principais  como estudantes, trabalhadores, donas de casa e profissionais liberais. Hoje, além dos grupos tradicionais, convivemos com “tribos” extremistas e bandidas que não querem o diálogo e nem o protesto; querem se expressar pela força da violência, num tom de revolução de rua sem origem e sem sentido, que nos leva a desconfiar sobre a possível manipulação infiltrada de partidos da situação e da oposição nas manifestações para desestabilizar o debate, os governos e cometer crimes contra a sociedade e o patrimônio. Não podemos esquecer ou desmerecer a presença de tribos positivas que compõem a nossa sociedade defendendo direitos civis e debates inovadores como o casamento gay, o respeito ao corpo da mulher e questões relacionadas ao aborto.  Além de reclamar pelo aumento das passagens, os protestos foram se expandindo  com questões gerais e específicas, formando manifestações sem cara e complexas.
As manifestações, além de causas, necessitam assumir maior sentido. Não basta baixar a passagem ou modificar a gestão de nossas verbas, é necessário rediscutir a legislação social brasileira e a nossa postura de cidadão. É necessário exigir penalização aos políticos corruptos e às empresas que os patrocinam nas eleições e nos esquemas de desvio de verba pública. É  necessário exigir melhores serviços públicos para a população, ampliar o financiamento para a construção de moradias, escolas e hospitais, entre outras questões. O Brasil, apesar de ser uma economia forte e  emergente, possui um mercado vulnerável oriundo das nossas fraquezas sociais. Porém, protestar com violência não é protesto. Gritar não é ter voz. Ainda é preciso saber viver.
Ensaio de Fernando Rebouças, redator publicitário, webwriter, desenhista e editor. Rio de Janeiro 24 de junho de 2013http://www.infoescola.com/atualidades/ensaio-sobre-as-manifestacoes-no-brasil-em-2013/

Artigo| O que revelam as manifestações?

24 d junho d 20132
Por mais simpática
que seja a causa,
ela não resistirá
à violência, que
não é tolerada
pela sociedade
MARCELO SCHENK DUQUE*
A onda de manifestações que atinge as principais cidades brasileiras já entrou para a história. Cinco características são marcantes: 1. Mudança comportamental. O silêncio da população frente a situações indesejadas deu lugar a protestos veementes. 2. Ausência de uma pauta única de reivindicações. A questão do valor das passagens foi somente o estopim dos protestos, que passaram a contemplar outras questões, passando pela corrupção, má qualidade dos serviços públicos, gastos com a Copa do Mundo, privilégios de corporações etc. 3. Noção de que a irresignação popular não pode ficar restrita ao mundo virtual das redes sociais. Para ganhar força e ser eficaz, um protesto tem que ganhar as ruas. 4. Pluralidade de atores e ausência de lideranças. Para a maioria dos participantes, o comparecimento às ruas tem sido espontâneo, fruto de um sentimento de mudança. 5. Caráter apartidário. As manifestações estão repelindo as agremiações partidárias, o que revela o esgotamento do atual sistema eleitoral, a descrença nos partidos políticos e nos seus quadros.
Essas características, por sua vez, levantam questões relevantes: qual será a duração desses movimentos? A partir do instante em que a pauta de reivindicações é ampla, não se esperam resultados em curto prazo. Contudo, se a pressão popular ceder, as reivindicações tendem a perder força. Os protestos tendem a descambar para a violência? Por mais simpática que seja a causa, ela não resistirá à violência, que não é tolerada pela sociedade. O desafio está nas mãos das autoridades, que em colaboração com a maioria pacífica dos manifestantes, têm que remover dos protestos aqueles que, mediante atos violentos, abusam do direito de protestar.
Como a mensagem dos manifestantes será recebida e interpretada por quem detém o poder político? A amplitude das reivindicações, somada à ausência de lideranças, dificulta a interlocução dos seus objetivos. Por fim, esses movimentos terão repercussão nas eleições de 2014? Um baixo índice de renovação dos órgãos de representação coletiva no próximo pleito seria uma contradição com a própria ideia que as manifestações passam. Por certo, o país enfrenta um momento de aprendizado e de reflexão.

Marilena Chaui: As manifestações de junho de 2013 em São Paulo

26 de junho de 2013

por Marilena Chaui
Na 
revista Teoria e Debate

Observações preliminares
O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.
O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.
O inferno urbano
Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.
Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:
– explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;
– explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável além de não contar com uma redes de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;
– aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;
– o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 k de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 k. Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual.
No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores.
Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumir qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.
2. As manifestações paulistanas
A tradição de lutas
Recordando: A cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage, sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por que. Talvez porque, vindo da esquerda, o MPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politiza-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.
Recordando: Nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos:
1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais;
2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade;
3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos. Numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.
Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu:
1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta;
2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais;
3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que por isso mesmo é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.
Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.
O pensamento mágico
A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da midia:
a. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva, etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;
b. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (Dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);
c. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa.
A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;
d. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social; ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.
No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é  constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem.
Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia.
A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:
a. no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;
b. no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;
c. a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).
Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuímos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática.
Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência.
Como se sabe, essa posição dos meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados.
Dessa maneira, a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética.
De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas.
A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção.
Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.
Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos.
Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso: Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.
Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.
Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos onde isso foi dar.
E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL.
Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.
Conclusão provisória
Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.
Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo).
Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis.
Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.
Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.
Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes.
Com isso, podemos fazer algumas indagações.
Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?
Essas indagações não são gratuitas nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.
Motivo político: assinalamos anteriormente o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:
1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar pra valer o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?
2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente sem mediações institucionais?
3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?
4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêmero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?
Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo.
Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota.
Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio.
Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura.
Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU.
Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei.
A Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada.
Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.
Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela.
Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.